terça-feira, 17 de agosto de 2010

ITABIRA NÃO É APENAS UM RETRATO NA PAREDE




Tudo deveria ter permanecido exatamente como foi. Não sei o motivo pelo qual insistimos em mudanças, se nunca conseguimos cortar os laços com as nossas raízes. O chão sempre permanecerá exatamente igual: como o colo de mãe. Deixar aquela cidade somente no passado é praticamente impossível. O ferro do minério estará sempre em todo o lugar que formos, no ar, no sangue, na alma, nos pulmões e na memória. Aquele povo sistemático, espiando pelas frestas das janelas o que se passava na rua, embora patético, é inesquecível. De que adiantou o Drummond tentar fugir de sua origem, desejar nunca mais voltar em Itabira, onde as “ferraduras batem como sinos nas calçadas com noventa por cento de ferro” e ele mesmo disse achar que os itabiranos carregavam igualmente “oitenta por cento de ferro nas almas” e, ainda, se descreveu, por esse motivo, uma pessoa ”triste, orgulhosa: de ferro”? Eu também quero e tento me desligar desse laço com o passado, até mesmo ignorar e me esquecer dos dizeres do Drummond. Mas o que fazer se sou mais uma que lá foi gerada e nasceu; mais uma que passou parte da infância engrossando as pernas de tanto subir e descer morros, à beira das montanhas, por entre minérios de ferro, que grudava na roupa. Assim como Drummond e todo itabirano, também carrego “oitenta por cento de ferro na alma”. O sangue que corre rasgando minhas veias é negro e brilhante, por isso, também sou ”triste, orgulhosa: de ferro”.

Lembro-me de um sentimento de perda imensa que invadiu o meu coração de criança, quando ouvi uma previsão de que a montanha de minério que existia em Itabira iria acabar, porque mandariam tudo de trem para o exterior, junto com muito ouro escondido. Cresci imaginando a sena: Itabira sem o Pico do Cauê. Para mim, assim como para todo itabirano, naquela época, era uma sena dolorosa de se imaginar. E como doía pensar naquela hipótese!

Hoje, muitos anos depois, após morar em João Monlevade e, atualmente, estar morando em Belo Horizonte, vejo, que, realmente, aquela montanha do minério de ferro diminuiu bastante e, praticamente, não podemos vê-la de longe, como víamos antigamente, mas aquele pó negro e brilhante espalhado por todo o canto da cidade continuava grudado no ar, no sangue, na alma e, principalmente, no orgulho daquele pacato e tranquilo itabirano que nunca saiu de lá, mesmo distante.

O povo? Ah, esse continua sistemático a espiar-nos desconfiado e curioso, por entre as janelas semi-abertas, bisbilhotando a vida alheia, como se não tivessem nada melhor para se fazer na vida: a mesmice de antigamente. Lembrei-me novamente de Drummond: - “Eta vida besta, meu Deus!!!”


Janieth Costa Monteiro

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