sábado, 29 de outubro de 2011

LABUTA

(Janieth Costa)






Éramos inteiramente
Síntese um do outro.

Sob o domínio do espírito
E da alma molhada pelo cansaço
Eu e a fadiga
Caminhávamos todos os dias
Lado a lado.


Chão e céu
Se fundiam num único mundo.

Não pisávamos
Nem voávamos
Simplesmente
Existíamos.


Todos os dias
Eu e o cansaço
Sem nenhuma palavra
Conversávamos


A aparência da fadiga
Estampada em meu rosto
Dizia tudo,
Sem querer dizer nada.


O meu pensamento alado e mudo
Abandona a lassidão desse meu corpo mórbido
E como loucos e únicos,
Eu e o cansaço
Voamos para outra dimensão
Porém nada, nada nos separava.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Coisa de Grego

(Janieth)






Vivo em um "Kosmo Makro ",
onde se vivem vários seres vivos
e, também, milhares de "Antropos Mikrós",
que, comparados à imensidão do "Kosmo",
são infinitamente mínúsculos, insignificantes...

Sofro de "antropofobia",
porque estes "Antropos"
vivem se multiplicando em "polis",
situadas em diversas "partículas" do "kosmo",
onde sua "dêmos"
tem um "antropo monarca"
que vive falando em "democracia".
Vê se pode!

Ah, que "kosmo"!
Onde a "demografia" cresce
absurdamente
para os pobres
e decresce "analogamente"
para os ricos.

"Grapho",
uma "cacografia",
não uma "caligrafia",
tentando fazer uma "geografia"
e ver se entra em minha "kephalé"
que esse meu "monólogo"
é sinal de um "kakós".

Quem sabe é da "kephalé"?

Preciso de um "philos",
não é necessário que seja "kallós",
mas é preciso que tenha "calilogia"
para da "Bios" me falar.

Somente assim poderei entender
esta "agonia" da "Bios"
pela sobrevivência dos seres vivos da terra
e de todo o "kosmo".

quarta-feira, 22 de junho de 2011

DESPEDIDA

Janieth Costa


Numa noite linda!
A lua cheia
Iluminava a montanha.

Uma brisa leve e fresca,
Acariciava o rosto da menina,
Trazendo no ar o cheirinho da natureza.

No alto da montanha tinha um amplo pasto.
Os gados, que se espalhavam
Pelo verde da mata durante o dia,
Já haviam se recolhido.

Pela janela, além do gramado sob ela,
Podia-se observar um bom pedaço do bairro.

Ao longe, no alto da montanha,
Uma pequena correnteza
O som da sua água correndo,
Os “cri-cris” dos grilos escondidos.
As luzinhas dos vagalumes
Piscando pela noite adentro.

Ao fundo uma música suave
À voz de José Gregório, o avô,
Que, no escurinho do quarto,
Dedilhava habilmente seu violão.

A menina, por um tempo,
Parou de olhar pela janela.

Em cima da mesa
O seu prato predileto: arroz e ovo.

Ao seu lado Dª Dolôres, a avó,
Com muita ternura e carinho,
Olhava para ela e,
Pela mesma janela,
Contemplava a mesma paisagem
Que a menina contemplara.

Do outro lado da mesa,
A figura feminina e querida
Hermengarda, a mãe,
Usava um vestido preto,
Cabelos presos em forma de rabo de cavalo,
No pescoço um cordão de ouro
Que ganhara no dia das mães.

A menina estava se sentindo sozinha.

A menina pensou
No quanto seria bom
Se aquela noite mágica
Nunca terminasse.

Ainda pensativa
A menina levou o garfo,
Com um pouco de arroz
Molhado no amarelo do ovo, até a boca.
(naquele dia, o gosto não estava tão saboroso.)

A menina estava analisando a sua terrível solidão.
Olhou mais uma vez pela janela
E para a sua avó
Que, novamente, acompanhou os olhos da menina.

Será que a avó,
Sentia uma solidão
Tão gelada, quanto a da menina?


A menina se levantou,
Em passos lentos,
Mas decididos,
Atravessou a porta
Que dava acesso à cozinha
Entregou o prato vazio à pia
Tocou com um dedo, levemente,
Nas costas da Jovelina,
Agregada à família pelo tempo de dedicação,
Que estava à beira do fogão...

Jovelina se virou com um olhar triste
E olhou para a menina...

Ela perguntou: - Quer mais um pouco?
A menina respondeu: - Não, obrigada!

E assim foi a despedida,
De uma vida pacata e tranquila,
Daquela menina
Que foi estudar na capital...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Prisioneira do Tempo.

(Janieth)





Tic-tac
Olha a hora.

Tic-tac
Não demora.

Tic-tac
Sai da frente.

Tic-tac
Tô com pressa.

Tic-tac
Acho que vai chover...

Tic-tac
Sai depressa...

Tic-tac
Vou correndo.
Olha o tempo.
Veja a hora...

Tic-tac
Não demora.

Tic-tac
Quase....

Tic-tac
Na hora.

Tic-tac
Estou...

Tic-tac
Chegando...

Tic-tac
Na hora...

Tic-tac
Marcada.

Tic-tac
Não...

Tic-tac
Demorei...

Tic-tac
Quase nada...

Sentada Sozinha Na Praça.

(Janieth)




Sentada sozinha na praça
Olhando quem passa,
Mas se quem passa
olha pra mim sentada sozinha na praça,
Eu fico sem graça.

Porque ficar sem graça,
Se quem passa, não passa sem graça
E, talvez, me ache uma graça
Sentada sozinha na praça?

Ser Gauche É Sina de Itabirano

(Janieth)












Acho que ser gauche é sina de Itabirano,
Ou então o anjo torto
Que visitou o Drummond quando nasceu
Vive lá, nas sombras de Itabira.

Estranho como me sinto tão próxima
Dos sentimentos depositados nos versos de um poeta.

Acanhadamente os meus dedos deslizam
Teclando frases que sempre me portam aos seus versos.

Se é pelo fato de ser também Itabirana,
Eu já não me importo por isso!

Se for por ter subido e decido as ladeiras de Itabira um dia
Também já não me importo!

A vaidade foi-se a algum tempo
O orgulho é que me aporrinha.

O ferro na alma, algumas vezes ultrapassa o da calçada.

Não adiantam minhas perguntas
Ficarão todas sem respostas
Como as outras que um dia fiz.

Só me restam as renuncias.
Essas foram tantas
Que já nem sei quantas.

E agora Drummond?

Não desejo cantar o seu mundo caduco
O passado não deixa poeira
Somente rastros a seguir.

Cálculos e sonhos me rondam
Noite e dia
Dia e noite.

A história foi feita para se saber
Não para nos preocupar.

E agora Drummond?

Fico aqui à meia luz
Vivendo à sua mercê
Ou vou para meu canto
E deixo de pensar?

E agora Drummond?

Eu que não tenho nome,
Que zombo dos outros,
Também faço versos,
Amo e protesto
Pergunto a você:

E agora Drummond?

Com certeza
Aquele anjo torto
Não visitou somente você.

sábado, 11 de setembro de 2010

FÉRIAS


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Passeios na casa dos avós...
Férias simples, mas inesquecíveis!!
Tantos pedaços de recordações que me inundam a lembrança ...

Fartura de diversão ...
Fartura de amor ...
Fartura de parentes ...
Fartura de crianças e brincadeiras durante a tarde.

À noitinha os fantasmas (encarnados em minha avó) vinham nos visitar.
O vovôzinho querido assistindo ao telejornal e dando boa noite aos repórteres no final (São Tonico) e, depois, pegando o violão para cantar pra gente (um dia uma criança me falou, olhou me nos olhos a sorrir, caneta e papel em suas mãos, tarefa escolar para cumprir ...).

Madrugada bem dormida, até esquecíamos onde estávamos, de tão dormidinhos que ficávamos ...

Manhãzinha sadia...

Acordávamos com o canto das pombas em cima do telhado (grum ... grum... grum...), cachorros latindo e a galinhada no terreiro ...

ah, assim eram todas as manhãs ao despontar do dia!!

O galo erguia-se, esticava o pescoço e cantava. O seu canto ecoava pelo ar, valendo-se da potente voz, um pouco aguda e algo cacarejante. Era uma referência na vida do bairro e um fator imprescindível para tudo estar bem quando tudo começava bem. Além disso, o galo entoava um canto inconfundível na estrutura de Loanda. Cantava sempre quatro vezes e parava. Cantava de novo quatro vezes e interrompia. Depois cantava apenas três vezes e, a seguir, depois de um pequeno intervalo, cantava, novamente, mais três vezes. Nunca se percebeu a secreta razão deste canto do galo. Meu avô me dizia que era um Canto poético, minha avó complementava a fala do meu avô dizendo que parecia mais um canto a quatro vozes. E eu entendia que era, na realidade, apenas por quatro vezes. Mas todos constatávamos que não era um canto imaginário. Quando muito, imaginativo: Um Canto em Forma de Soneto.
Férias boas ...

Tempo bom aquele ...

Não me esqueço das rosquinhas matinais feitas por minha avó, das rezas de terços compridas, das roupas que mandava nos fazer, de suas gracinhas, anedotas, contos de antigamente, estórias de fantasmas e folclóricas ... Não me esqueço dos milhos debulhados pelo meu avô ... não me esqueço ... vô me dá dinheiro: Pede Inhô ... pede Inhô ... não me esqueço ... minha filhinha, o vovô vai no “Barbante”: vamos? ... minha filhinha, o vovô vai no “Baltazar”: vamos? ... (e aí vinham as marmeladas, os docinhos, os chicletes ... o imenso carinho e amor, que muitos pensavam que não tínhamos ...)